
ILHA
DA CONCEIÇÃO
Situada em frente a antiga enseada de São Lourenço, a Ilha da Conceição
teve toda sua história de ocupação basicamente relacionada ao mar. No
passado, a área sediava uma fazenda com uma capela datada de 1711, que
foi derrubada, parede por parede, sob alegação do padre da necessidade
de reforçá-las. Na época ocorreram discussões acirradas com os moradores
porque a medida que se construía uma parede por fora, o padre permitia
a demolição da parede original. Hoje a capela transformou-se na Igreja
de Nossa Senhora da Conceição. A sede da fazenda localizava-se onde
atualmente funciona o Centro Social Urbano (CESU). Há referências quanto
a existência de gado na Ilha, presença esta associada ao matadouro que
funcionava no Barreto, em frente a um dos antigos cais de acesso à ilha.
Entretanto, a partir do início deste século, se estabelece a relação
da ilha com a indústria naval, estreitada com a construção do Porto
de Niterói, inaugurado em 1927. Esta relação se manteve quando a ilha
se ligou ao continente, em 1958. No espaço pertencente a Leopoldina
Railway (inglesa) instalaram-se na ilha, desde 1908, um estaleiro do
Loyd Brasileiro, a oeste, e uma empresa inglesa, ao norte - a Wilson
Sons, que fornecia pedras (retiradas da própria ilha) para lastro de
navios, para a construção de cais e, também, carvão para navios e locomotivas.
Vários eram os interesses da Leopoldina Railway, principalmente a instalação
de um terminal de carvão junto a seu cais. O terminal ferroviário de
Niterói foi inaugurado em 1930, junto ao Porto, e a Leopoldina Railway
cogitava construir uma linha férrea ligando os dois lados da ilha, para
transporte de carvão - então feito pelo mar, através de chatas. Com
a Wilson Sons começa a ocupação efetiva da ilha, incrementada nas décadas
de 20 e 30 com imigrantes portugueses trazidos para trabalharem nas
suas carvoarias. Havia uma relação respeitosa empresa/empregado, pois
os imigrantes iam uma vez por ano a Portugal, de navio, por conta da
empresa. Os trabalhadores ocupavam casas de pau-a-pique (1) nas áreas
da Leopoldina Railway, que não permitia construções em alvenaria. Esta
ocupação era consentida pela empresa, que apenas cobrava um pequeno
aluguel, sem nenhuma preocupação em inibí-las ou em oficializá-las por
contrato. Com tal facilidade, pescadores, operários navais, ferroviários
e principalmente imigrantes portugueses, trazidos por informações chegadas
à Portugal através dos conterrâneos que aqui viviam, mudam-se para a
ilha. Os primeiros em busca de casa própria, os segundos por uma vida
nova e também incentivados pelo fluxo migratório no sentido Europa/América
existente à época. Face a indiferença da Leopoldina Railway surgiram
construções em alvenaria. O material para construção chegava em barcos
e as residências eram erguidas pelos próprios moradores.
Tentando organizar a ocupação das terras, surgiu na ilha um topógrafo
da empresa que, segundo alguns, defendia interesses estranhos aos dos
moradores (o dele próprio). Desta forma as casas iam sendo erguidas,
notando-se hoje um acentuado desalinhamento nas construções. A Ilha
da Conceição, como se configura atualmente, foi constituída a partir
da ligação de duas ilhas que, dependendo da maré, podiam unir-se ou
se separar por um canal (navegável), sendo formada geomorfologicamente
por três morros principais. A primeira ilha, onde localiza-se o Morro
da Fábrica, situa-se na atual entrada do bairro, cujo nome deve-se a
existência de uma fábrica de álcool-motor, depois transformada em fábrica
de doce e por último transformada em fábrica de sardinha, sendo posteriormente
desativada. Esta parte da Ilha teve o seu loteamento feito de forma
regular pelo Banco Costa Monteiro, onde observa-se melhor padrão construtivo.
A segunda ilha, área da Leopoldina, era formada pelo Morro do MIC (2),
antigo morro da Wilson Sons, e pelo Morro da Capela. A ligação entre
as duas ilhas ocorreu quando da construção do Porto de Niterói, utilizando-se
a areia vinda da dragagem do cais. Esta zona arenosa que se formou foi
sendo definitivamente aterrada pelos próprios moradores, conforme as
construções iam surgindo. O abastecimento de água era feito por um terminal
da Leopoldina e a energia elétrica foi negociada com o Loyd Brasileiro,
que permitia a extensão de cabos do estaleiro até as residências. Em
1958, com a conclusão da ligação ao continente, foi aberta a principal
rua da ilha, a Mário Neves, pela Companhia Nacional de Saneamento que
tinha interesse na área. Deu-se então, a ocupação da orla da Ilha, principalmente
pelas indústrias navais, acabando dessa forma com os banhos de mar dos
moradores, já prejudicados pela poluição causada pela criação de suínos
em liberdade, intensa à época. Uma luta antiga dos moradores é pela
posse da terra que pertencia à Leopoldina Railway. Estatizada pelo governo
federal, tornou-se Estrada de Ferro Leopoldina, sendo posteriormente
anexada à Rede Ferroviária Federal S.A. Em 1987 a Prefeitura Municipal
de Niterói comprou as terras litigiosas, com o compromisso de vendê-las
aos seus ocupantes. A Ilha da Conceição é considerada uma colônia portuguesa,
cuja presença é marcada pela tradicional festa de Nossa Senhora da Conceição,
que peculiarmente tem a comissão de organização constituída com paridade
entre portugueses e brasileiros. Esta festa era aguardada ansiosamente
por toda a população e contava com a presença de representações diversas
da colônia portuguesa, trazidas em barcos emprestados pelos estaleiros.
Quase todos os namoros da Ilha iniciavam-se nessas festas. Entretanto,
apesar desta manifestação religiosa, o primeiro padre específico para
a paróquia da Ilha chega em 1968. Até então os casamentos, batizados
e demais serviços religiosos eram feitos pelo pároco do Barreto. Além
da festa de Nossa Senhora da Conceição, outro prazer dos habitantes
era o cinema que existia na Ilha. Com uma capacidade organizativa muito
grande, talvez pela sua formação de imigrantes que, em terras estranhas
precisavam se organizar, a população da Ilha teve conquistas sociais
de relevância.
- O empréstimo da energia elétrica pelo estaleiro do Loyd Brasileiro;
- A regularização do fornecimento de energia elétrica pela CBEE
(Cia. Brasileira de Energia Elétrica);
- A luta pela posse da terra;
- O reservatório da Cedae;
- A luta pela escola local, atualmente Escola Estadual Zuleika Raposo
Valladares, cuja primeira etapa foi construída através de recursos obtidos
pelos próprios moradores. Outro fator a que se pode creditar a capacidade
organizativa do bairro é a presença, entre seus moradores, de muitos
operários navais e ferroviários, categorias combativas e bem organizadas
sindicalmente até 1964.
O Centro Pró-Melhoramentos (CPM) do bairro foi fundado em 1958 pelo
grupo mais organizado dos moradores (os portugueses ficam de fora) e
teve papel importante nas conquistas obtidas pelos que residiam na ilha.
Mas a diretoria foi afastada em 1964, acusada de ser "comunista", denunciada
pelos que a ela faziam oposição no bairro. Os processos contra os diretores
do CPM não foram adiante porque o militar encarregado do inquérito exigiu
provas concretas, não obtidas pelos acusadores. A paixão dos moradores
podia ser sentida pela rivalidade existente entre os dois clubes locais,
cujos jogos terminavam sempre em briga generalizada. Alguns jogos foram
realizados fora do bairro a fim de se evitar o confronto das torcidas.
O Esporte Clube Azul e Branco, cujo campo existe até hoje, data de 1926
e o Esporte Clube Luzitano, fundado em 1935, possui grande sede social,
mas o seu campo foi ocupado para construção da escola estadual. Uma
Subdelegacia chegou a funcionar na ilha, com um titular protegido por
políticos com interesses na área. O subdelegado tornou-se uma espécie
de administrador informal, controlando desde a marcação das terras até
a distribuição de energia elétrica. A primeira linha de ônibus chegou
junto com a ligação da ilha ao continente, em 1958, ainda trafegando
por ruas de barro batido. A linha era atendida por veículos da antiga
Companhia Serve, veículos em péssimo estado de conservação e com freqüência
duvidosa.
(1) Pau-a-pique: parede feita de ripas ou varas entrecruzadas
e barro; taipa.
(2) Morro da Ilha da Conceição (MIC).
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