
SÃO
DOMINGOS
Os limites de São Domingos são as águas da Baía de Guanabara e os bairros
do Centro, Ingá, Boa Viagem e Gragoatá, com os quais se confunde pelos
fatos marcantes de sua história. Sua área total é das menores (0,69Km2),
comparada a de outros bairros do município, mesmo com o grande acréscimo
do aterro em seu litoral. Sua paisagem natural está praticamente destruída,
nada restando da vegetação e das praias que proporcionavam um clima
agradável e que tanto encantaram e atraíram os que para cá (Banda d'Além1)
vieram a passeio, curar suas enfermidades, morar e se estabelecer; ou
que conheceram de passagem, em direção a outros locais.
São Domingos é um dos bairros mais antigos de Niterói e nele aconteceram
fatos significativos, que marcaram a história da cidade. Caminhando
pelas suas ruas, observando edificações e praças, fica evidente a convivência
e o contraste entre o passado e o presente. Área pertencente à Sesmaria
dos Índios, foi ocupada de forma semelhante a outros locais da cidade.
Nela, o colonizador português nela se estabeleceu, chegando a existir
no local propriedade agrícola com plantação de cana-de-açúcar e um engenho,
além de uma capela, a atual Igreja de São Domingos. A sua localização,
ponto próximo da cidade do Rio de Janeiro e suas características geográficas
naturais - as praias tranqüilas, a pequena planície entre os morros
e o mar - favoreceram a ocupação e o aparecimento de um povoado em torno
do largo de São Domingos, ainda no período colonial. Alguns fatos contribuiram
para esta ocupação: o porto de atracação e a visita de D. João VI.
O principal meio de transporte e comunicação entre os diferentes locais
era o marítimo. No litoral da Baía de Guanabara existiam diversas pontes
de atracação. Do lado de cá existiam pontes de São Domingos a Guaxindiba
(São Gonçalo), de onde partiam os caminhos que conduziam ao interior.
Em 1816, D. João VI acompanhado por outros membros da Corte, passou
uma temporada em São Domingos. Para melhor abrigá-lo, um rico comerciante
de escravos, proprietário de vários imóveis, presenteou o monarca com
um casarão de três andares2 que passou a ser chamado de Palacete3 -
no largo de São Domingos. Esta visita de D. João VI foi um fato marcante
para o desenvolvimento de Niterói, facilitando o processo de elevação
do povoado à condição de Vila Real. O Alvará Régio estabelecia que a
sede da Vila deveria ser erguida "no lugar chamado de São Domingos da
Praia Grande".
Em virtude do acanhado espaço do largo de São Domingos para erigir o
Pelourinho (símbolo da autonomia), a Casa da Câmara e a Cadeia, a sede
da Vila foi deslocada para outro local, o antigo Campo de Dona Helena,
na parte voltada para a rua da Conceição. Mesmo não tendo sido escolhido
como sede da Vila, por todo o séc. XIX e início do séc. XX, São Domingos
continuou sendo um dos locais de maior significação da cidade de Niterói.
Alguns fatos merecem ser destacados:
1º) Os caminhos naturais por entre os morros do bairro têm seus antigos
nomes referendados nos primeiros planos de urbanização da cidade (no
início do séc. XIX) sendo gradativamente arruados, pavimentados e iluminados,
inicialmente a óleo de baleia. A estes foram acrescidos novos caminhos,
destacando-se a extensão da rua da Praia (Visconde do Rio Branco) ao
longo do litoral, com o corte de morros, derrubada de imóveis, o arruamento
e construção do cais, que permitiram e facilitaram o deslocamento de
pessoas e mercadorias. Transitavam também os bondes de tração animal4
e depois elétrica, nas suas rotas em direção ao Centro, Ingá, Icaraí,
etc.
2º) Com a criação do Município Neutro, Niterói passou a ser a nova capital
da Província do Rio de Janeiro (1835). O lugar escolhido para abrigar
os primeiros presidentes da Província foi o antigo Palacete.
3º) Em torno do largo de São Domingos, atual praça Leoni Ramos, prédios
residenciais foram construídos, abrigando o endereço de diversos nomes
ilustres da Província. Também no bairro, considerado um subúrbio do
Centro no século passado, estabeleceram-se negócios como armazéns de
secos e molhados, farmácias - com médicos e armarinhos; colégios, hospital,
hotéis e pensões, gráficas e outros 5.
4º) A regularização das comunicações entre o Rio e Niterói, necessária
pelo grande movimento de passageiros e mercadorias, passou a existir
através da concessão do serviço de navegação a particulares que recorreram
a barcos a vapor. Esses vapores atracavam para embarque e desembarque
na Praia Grande e em São Domingos. As embarcações e os bondes funcionavam
com horários sincronizados, para melhor atendimento aos usuários. Em
São Domingos, a Companhia Cantareira possuia um estaleiro para reparos,
em embarcações.
5º)Já possuidor de feição residencial, companhias estrangeiras (inglesas
e alemães) estabelecidas no Rio de Janeiro escolheram São Domingos e
os atuais bairros vizinhos como local de moradia de seus funcionários.
Os estrangeiros introduziram novas práticas esportivas ligadas ao mar,
especialmente o remo e a vela. Eles foram responsáveis pelo aparecimento
de clubes como o Audax (remo) e o Iate Clube Brasileiro, o primeiro
clube de vela do Brasil.
1
Como os moradores do Rio de Janeiro se referiam a Niterói, no período
colonial.
2 Outros imóveis foram cedidos para abrigar os membros da Corte.
3 O palacete foi derrubado em 1904 devido ao seu precário estado de
conservação.
4 Os primeiros bondes foram instalados a partir de São Domingos.
5 A primeira agência do correio de Niterói foi estabelecida em São Domingos
- A Travessa Alfredo Azamer era conhecida como o beco do correio.
6 Esteve instalado em terreno próximo ao Audax, de 1910 a 1923, até
a sua transferência para a Estrada Fróes.